Vejo-me tão perplexa e distante naquela festa com
tons punks misturados ao quase brega.
Pouco antes de sair pensei "vou até lá pra exercer o desapego".
É, o desapego de uma pessoa, pois parece ser mais fácil quando se trata
de objetos, meros objetos que se usa e joga fora. Nem sempre.
No meio de tanta gente e tantos rostos sem graça, acabo por me penetrar até a alma
naqueles olhos já conhecidos, e a festa mal começara.
Justamente quem eu não queria ver, e cogitei ser impossível sua presença.
Porém a vida prega as tais peças, que vêm sem anúncio algum, somente para
surpreender quem não quer ser surpreendido.
Após um breve cumprimento, sem mais delongas, no hálito e voz que outrora gemera e
dissera bobagens boas, agora havia uma distãncia bem longa, quase inatingível.
Adentrou-se no recinto com um amigo, enquanto eu esperava pelos meus lá fora.
Inevitavelmente e amaldiçoadamente, senti que a noite acabara ali, e logo aquelas
lembranças, após tanta insistência, conseguiram passar diante dos meus olhos.
Lembrei de tudo. Mas isso era óbvio, pois estava justamente no lugar onde nos conhecemos, e onde demos o primeiro beijo.
Após certa espera, entrei para a festa, e logo vi a tal camiseta do Amon Amarth
apontando pra lá e pra cá na escuridão, procurando o que estava procurando no dia
em que me conheceu. Mas agora iria conhecer outras, e senti
que aquele jogo de luxúria acabaria ali, na minha frente, se é que já não havia acabado há muito tempo e eu que não percebi.
Subi as escadas, e a cada degrau me pesava mais uma lembrança, do ônibus à noite,
daqueles abraços quentes, da falsa sensação de amparo...
Lá de cima via corpos se chocando, outros se agarrando num afago quase que emergencial, e de novo a tal camiseta surgia no breu, apenas iluminada
pelos canhões de luzes coloridas.
Minha vontade era de descer correndo as escadas, encostá-lo na parede e dizer tudo o que estava entalado, depois tascar-lhe um beijo fogoso, tentando carregar aquele corpo pra um canto deserto onde eu pudesse despir todas aquelas dúvidas e lembranças.
Mas era só desejo, que meu orgulho impedia de realizar.
Após tantas frustrações, decidi abandonar aquela sessão de tortura e ir para o meu
lar, aconchegar-me nas cobertas, já que não pude me aconchegar nos braços de alguém.
Fui caminhando em passos descompassados até o centro da cidade, indo pela Mostardeiro
tão deserta e melancólica, assim como meus pensamentos.
Junto do meu amigo com papo de bêbado, já que a festa era "open bar", fui declamando
dores de cotovelo e juras de nunca mais me entregar.
A falsidade sempre se fez presente, e sentada no meio-fio, esperando o circular das
cinco e quinze da manhã, me vejo ao lado da tal camiseta, tão nítida quanto os olhos
que me encaravam e esperavam qualquer reação.
Assim como a falsidade, a burrice também sempre se fez presente, e ali, diante de
bêbados vindos dos mais variados botecos do centro, junto com jovens boêmios,
mergulhei num beijo, mesmo sabendo que nada era como antes.
Fomos juntos, sentados lado a lado no banco daquele ônibus cansado, de mãos dadas
como velhos namorados, sendo que nem mesmo fomos amantes, nem sei definir o que fomos.
Ele dormindo no meu ombro, e eu olhando para a Farrapos com suas donas noturnas,
sem sono algum me perturbando.
Logo estávamos perto de casa, eu o acordei e ele me deu um beijo de despedida, que
parecia tão quente e recíproco, mas mal sabia eu que era um adeus.
Fiquei com o gosto de Mentos na boca, lambendo os lábios, olhando para as pessoas
do ônibus, algumas vindas do trabalho, outras do festerê.
O dia começava a clarear. Dei o sinal e desci. Abri o portão, entrei em casa, deitei
e continuei pensando. Nada daquilo tudo estava certo, e mais cedo ou mais tarde a
bomba iria estourar.
E estourou.
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