Hoje, ao olhar pela janela, percebi que havia uma vontade dentro de mim.
As gotas de chuva caiam vertiginosamente, um pequeno frio havia se
instalado na cidade, e tudo estava muito silencioso.
Era cedo quando a chuva começou, mas ela prosseguiu até à noite, e só
então eu descobri a minha vontade: caminhar na chuva.
Calcei meu velho tênis e saí sem guarda chuva.
A passos lentos fui vendo o quanto as ruas são desertas em dias chuvosos,
e não se ouve qualquer latido dos cães que costumam fazer farra
em noites de luar.
Vejo as luzes acesas por entre as janelas, e imagino que dentro daquelas
casas há um aconchego, talvez um casal de namorados se abraçando no sofá,
ou um solitário ancião alisando seu gato.
Sinto cheiro de bolinho frito, e imagino uma querida vovó mandando seus netos
não mexerem no prato, enquanto ela passa um bolinho de cada vez no açucar
com canela.
Continuo com minha caminhada solitária, e vejo que um pobre cão começa a
me acompanhar.
Vejo em seus olhos a tristeza de ser um abandonado, sem ter um pano velho
pra se enrolar e dormir.
Suas costelas denunciam a fome, mas mesmo assim ele cria forças pra me
acompanhar, talvez tentando pedir pra que eu o leve para casa.
Porém minha casa é tão vazia quanto seu estômago, e é apenas casa,
não um lar.
você fala o que vive, ou fala o que sente?
ResponderExcluire sim, tudo o que se escreve é lido.