sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A revolta de Nestor

Nestor, do alto da escadaria, grita a todos os transeuntes:
- Pois esse país tem tantos donos, até mesmo dizem que Deus nasceu aqui, mas ninguém quer assumir a culpa da nossa desigualdade, da nossa civilização!
As beatas se aglomeram ao redor da igreja, vendo o que lhes parece um louco em pleno surto, falando com o vento.
Nestor até lembra Moisés, com uma barba comprida, grisalha, roupas em trapos, até um cajado leva na mão direita, apontando aos céus ao proferir suas palavras revolucionárias.
- Quero um mundo melhor pra mim, pra todos nós, para que todos possam viver em harmonia, sem saber o que é um mendigo, o que é um morador de rua, o que é passar fome!
E a multidão apoiadora vem se achegando aos gritos, mesmo sem saber quem é tal pessoa que discursa com fervor e objetividade, enquanto que os céticos olham com curiosidade, alguns até sugerindo que liguem para o sanatório.
- Eu sou Nestor! Eu sou cidadão! Eu tenho meus direitos de lutar por um país melhor!
A multidão vibra, os trabalhadores param seus afazeres e debruçam-se na janela para ver quem provoca tamanho furor, os chefes já começam a ordenar que voltem para seus lugares.
- Alô, é do sanatório Santo Onofre? Você está ouvindo esses gritos? Pois é, acho que tem um louco promovendo uma rebelião aqui na Praça dos Estados, na frente da igreja Santa Doroteia. - ligou um indíviduo descrente que uma pessoa poderia expor sua opinião em público.

Logo o carro do sanatório veio chegando, os enfermeiros desceram e se dirigiram a Nestor sem proferir uma palavra, agarraram-lhe pelo braço.
- Quem são vocês? Me soltem! Eu estou dizendo a verdade para todos, nós não podemos nos calar!
Sem se manifestarem, os enfermeiros o levam arrastado, abrindo caminho no meio da multidão que tentava puxar Nestor para a liberdade, para o direito de opinar, mas não conseguiram, e o quase profeta se foi dentro do carro.
No entanto Nestor deixou suas palavras para o mundo, mesmo sabendo que elas seriam esquecidas, e que o povo não lutaria na mesma causa que ele por pura conveniência e medo. Tantos outros como ele apanharam, morreram, foram dados como loucos, hereges, anarquistas, rebeldes sem causa, e foram julgados por quererem lutar pelo direito de todos, onde muitos desses todos acham que a situação está boa e que não é preciso tomar uma atitude.
Será que você faz parte dessa maioria ou apoia Nestor?

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